MCU & FPGA DSP Filtro Digital com Séries de Taylor e Cepstrum para Detecção de Assobio em RP2040

Filtro Digital com Séries de Taylor e Cepstrum para Detecção de Assobio em RP2040


2 — Características do Assobio Humano e Modelagem do Sinal

2.1 O assobio como sinal físico

Antes de escrever qualquer linha de código, precisamos entender o fenômeno físico que estamos tentando detectar.

Um assobio humano pode ser modelado, com boa aproximação, como:

  • Um sinal quase periódico
  • Dominado por uma frequência fundamental ( f_0 )
  • Acompanhado de harmônicas inteiras ( 2f_0, 3f_0, \dots )
  • Com baixa modulação de amplitude quando comparado à fala

Matematicamente, podemos expressar um assobio ideal como:

\[
x(t) = \sum_{k=1}^{N} A_k \sin(2\pi k f_0 t + \phi_k)
\]

Onde:

  • \( A_k \) são as amplitudes das harmônicas
  • \( f_0 \) é a frequência fundamental
  • \( \phi_k \) são as fases

Na prática, o termo dominante é quase sempre o fundamental, o que favorece a detecção por métodos baseados em periodicidade.


2.2 Faixa típica de frequências do assobio humano

Em medições reais, observa-se que:

  • Assobios graves: ~800 Hz
  • Assobios médios: 1,2 kHz a 2 kHz
  • Assobios agudos: até ~3 kHz

Acima disso, a energia cai rapidamente.
Isso é importante porque define diretamente o projeto do filtro digital.

Para a BitDogLab com RP2040, uma escolha prática é:

  • Frequência de amostragem:
    \[
    f_s = 8\text{ kHz ou } 10\text{ kHz}
    \]

Isso garante:

  • Pelo menos 2,5× a maior frequência de interesse
  • Margem confortável para filtros digitais simples
  • Baixa carga computacional

2.3 Sinal amostrado no ADC do RP2040

No domínio discreto, o sinal passa a ser:

\[
x[n] = x(nT_s)
\quad \text{onde} \quad T_s = \frac{1}{f_s}
\]

O ADC do RP2040 retorna valores inteiros, normalmente:

  • 12 bits: \( 0 \rightarrow 4095 \)
  • Offset DC em torno de metade da escala

Antes de qualquer processamento, precisamos remover o offset DC, pois ele prejudica tanto o filtro quanto o cepstrum.

Uma forma simples e eficiente:

\[
x_{ac}[n] = x[n] – \mu
\]

Onde \( \mu \) é a média móvel do sinal.

Isso já antecipa uma regra importante:

Todo DSP em microcontrolador começa com um bom pré-processamento.


2.4 Por que separar fundamental e harmônicas?

Pode parecer estranho separar algo que, no final, será usado junto novamente.
Mas isso tem um motivo claro:

  • A fundamental carrega a informação de pitch
  • As harmônicas reforçam a periodicidade
  • Ruídos tendem a não apresentar estrutura harmônica coerente

Ao filtrar corretamente:

  • A energia do assobio se concentra
  • O cepstrum passa a apresentar picos bem definidos
  • O limiar de detecção pode ser simples e robusto

Em outras palavras:

O filtro prepara o sinal para que o cepstrum “funcione bem”.


2.5 Introdução intuitiva às Séries de Taylor

Antes de usar Séries de Taylor como filtro, precisamos entender o que elas fazem.

Uma Série de Taylor aproxima uma função ao redor de um ponto:

\[
f(x) \approx f(0) + f'(0)x + \frac{f”(0)}{2!}x^2 + \frac{f”'(0)}{3!}x^3 + \dots
\]

No contexto de sinais:

  • Derivadas representam variações rápidas
  • Combinações de derivadas funcionam como operadores de realce ou atenuação

No domínio discreto:

  • Derivadas viram diferenças finitas
  • Séries truncadas viram filtros FIR extremamente simples

É exatamente isso que exploraremos na próxima seção.


2.6 Ponte conceitual: derivadas → filtros

Considere a primeira derivada discreta:

\[
\frac{dx}{dt} \approx \frac{x[n] – x[n-1]}{T_s}
\]

Isso é, essencialmente, um filtro passa-altas.

Já uma combinação do tipo:

\[
x[n] – \alpha (x[n] – 2x[n-1] + x[n-2])
\]

Resulta em um operador que:

  • Atenua baixas frequências
  • Controla ganho nas médias
  • Pode ser ajustado para reforçar uma banda específica

Ou seja:

Filtros digitais são operadores diferenciais discretizados.

Séries de Taylor nos dão um caminho matemático direto para construí-los.


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