Baseado no artigo: https://www.elektormagazine.com/news/rp2350-a4-stepping
Um ano após o lançamento do RP2350 original, a Raspberry Pi Foundation apresentou a revisão A4 como resposta direta a desafios concretos enfrentados pela comunidade de desenvolvedores. Essa nova versão não se trata apenas de uma atualização incremental, mas sim de um movimento estratégico para corrigir vulnerabilidades críticas de segurança, resolver problemas de confiabilidade em GPIOs e ampliar a gama de aplicações possíveis com novos modelos de memória flash. O lançamento simultâneo de um desafio de segurança com recompensa de 20 mil dólares reforça o compromisso da fundação com a robustez do sistema — uma ação que transcende o marketing e foca no fortalecimento da plataforma.

Entre os problemas mais reportados no RP2350 A2 estava o erratum conhecido como E9, um defeito relacionado ao comportamento dos pinos GPIO sob determinadas condições de boot e acesso paralelo. Para desenvolvedores, isso representava uma fonte recorrente de instabilidade em projetos sensíveis a timing e consistência elétrica. A revisão A4 resolveu definitivamente essa falha, proporcionando maior previsibilidade no uso dos periféricos e facilitando certificações em aplicações industriais e médicas.
Além da correção do GPIO E9, o RP2350 A4 introduz melhorias significativas nos mecanismos de segurança embarcada. Vulnerabilidades de canal lateral, identificadas por hackers éticos durante desafios organizados pela própria Raspberry Pi, foram neutralizadas por meio de ajustes na microarquitetura e novos bloqueios de acesso em nível de firmware. Isso posiciona o A4 como uma escolha mais confiável para projetos conectados à internet, onde integridade de dados e privacidade são requisitos mandatórios.
A decisão de lançar variantes com 2 MB de memória flash interna também reflete um entendimento das demandas atuais do ecossistema de firmware embarcado. Aplicações modernas exigem não apenas espaço para código de aplicação, mas também para stacks de conectividade, bibliotecas criptográficas e mecanismos de boot seguro. O dobro da capacidade flash elimina a necessidade de soluções externas em muitos projetos, reduzindo custos e melhorando a integração física nos designs finais.
Dessa forma, o RP2350 A4 não é apenas uma resposta técnica a falhas passadas, mas uma evolução madura que se alinha ao avanço natural do desenvolvimento embarcado. Ele atende a uma comunidade exigente que precisa de chips confiáveis, seguros e escaláveis para projetos que vão de brinquedos conectados até dispositivos médicos críticos.
Segurança Reforçada: Uma Arquitetura Contra Ameaças Reais
A revisão A4 do RP2350 marca um ponto de inflexão na abordagem da Raspberry Pi em relação à segurança embarcada. O foco desta atualização vai além das correções de bugs superficiais: trata-se de uma reengenharia para mitigar ataques de canal lateral — uma classe de vulnerabilidades cada vez mais explorada em sistemas IoT e dispositivos conectados. Esses ataques exploram informações como tempo de execução, consumo de energia e emissão eletromagnética para inferir dados sigilosos, como chaves criptográficas. No RP2350 A4, múltiplas contramedidas foram implementadas diretamente na microarquitetura e no subsistema de memória e periféricos.
Entre os recursos mais relevantes está a inclusão de mecanismos de aleatorização (randomization) e inserção de jitter em pontos estratégicos do pipeline de execução. Essas medidas têm o objetivo de tornar imprevisíveis os padrões de acesso à memória e tempo de resposta, dificultando a coleta de dados úteis por atacantes. Além disso, foram adicionados novos níveis de proteção para os registradores críticos e regiões de memória sensíveis, incluindo a possibilidade de bloquear acesso por software a determinadas áreas após o boot.
Outro aprimoramento fundamental é o fortalecimento do caminho de inicialização segura (secure boot), agora com suporte aprimorado para validação de assinaturas digitais e bloqueio de bootloaders não confiáveis. Isso amplia as possibilidades de uso do chip em sistemas que exigem conformidade com padrões como FIPS 140-3 (Federal Information Processing Standards), ou práticas equivalentes em ambientes automotivos, industriais e médicos. A capacidade de garantir que apenas firmware autenticado seja executado é um diferencial valioso em tempos de ataques de firmware persistente.
A Raspberry Pi também revelou que parte das melhorias vieram diretamente da análise de dados colhidos durante o desafio de segurança promovido em 2024, que expôs vulnerabilidades reais exploradas por especialistas em cibersegurança. Essa iniciativa colaborativa gerou insights que seriam difíceis de antecipar apenas com testes internos. O modelo de aprendizado baseado em “red teaming” trouxe à tona fragilidades não documentadas, e o A4 representa a resposta concreta a esse esforço coletivo.
Para os desenvolvedores, essas mudanças representam não apenas maior segurança, mas também tranquilidade e economia de tempo durante as fases de validação e certificação. A segurança já não é mais uma adição externa ou uma camada posterior de software — ela faz parte do próprio DNA do RP2350 A4. Com isso, a Raspberry Pi fortalece seu posicionamento como fornecedora não apenas de hardware acessível, mas também confiável para aplicações críticas.
Expansão da Memória Flash: Novas Possibilidades para Aplicações Complexas
Uma das melhorias mais tangíveis do RP2350 A4 é a introdução de novas variantes com 2 MB de memória flash integrada, dobrando a capacidade anteriormente disponível nas versões padrão de 1 MB da revisão A2. Essa expansão de memória, embora pareça um detalhe técnico à primeira vista, abre um leque significativo de oportunidades para desenvolvedores que trabalham com aplicações mais exigentes em termos de armazenamento de firmware, recursos gráficos ou protocolos de conectividade complexos.
Na prática, a presença de 2 MB de flash reduz a necessidade de soluções externas, como chips de memória SPI adicionais, que tradicionalmente são utilizados para complementar o armazenamento em projetos mais robustos. Isso não apenas reduz o custo e a complexidade do projeto, como também simplifica o layout de PCB, melhora a confiabilidade elétrica e libera espaço físico para outros componentes. Além disso, o acesso à flash interna tende a ser mais rápido e seguro, reduzindo latências e aumentando o desempenho do sistema como um todo.
Para sistemas que fazem uso de bibliotecas como o TinyUSB, stacks TCP/IP completos, interpretes embarcados como MicroPython, ou mesmo interfaces gráficas leves como LVGL, essa ampliação de espaço representa uma melhoria direta. Em vez de depender de segmentações complexas ou carregamento sob demanda, o desenvolvedor pode incluir todos os módulos necessários diretamente no firmware principal, otimizando o tempo de inicialização e evitando gargalos durante a execução.
Outro ponto relevante é que o aumento da flash está em consonância com o reforço do mecanismo de secure boot — agora é mais viável reservar regiões dedicadas para múltiplas imagens de firmware (como versões de recuperação ou teste), áreas criptografadas, assinaturas digitais, e registros de telemetria de segurança. Essa flexibilidade era limitada na versão A2, onde o espaço restrito de 1 MB forçava compromissos entre segurança e funcionalidade.
A Raspberry Pi também se antecipou a questões logísticas: os novos modelos com 2 MB já estão disponíveis para compra em volumes industriais, o que elimina um gargalo comum em atualizações recentes de hardware. Isso significa que fabricantes podem migrar para o A4 com flash expandida sem depender de roadmap de fornecimento incerto — uma vantagem crítica em linhas de produção onde previsibilidade é vital.
Correções de Errata e Confiabilidade Aprimorada: Fim do Fantasma do GPIO E9
Entre os pontos mais celebrados da revisão A4 do RP2350 está a eliminação definitiva do erro de silício identificado como E9 GPIO erratum, uma falha que por meses atormentou desenvolvedores ao redor do mundo. Esse problema afetava o comportamento dos pinos GPIO durante determinadas sequências de boot ou após operações simultâneas envolvendo DMA e periféricos paralelos, resultando em estados indeterminados ou travamentos do barramento. Em aplicações críticas, como sistemas de controle industrial, automação residencial ou wearables médicos, a confiabilidade dos GPIOs não é apenas uma conveniência, mas um requisito de segurança.
Com a revisão A4, a Raspberry Pi implementou modificações no path interno dos buffers de I/O e na lógica de inicialização dos bancos GPIO, garantindo que os registradores de controle entrem em estado determinístico e que os sinais de reset sejam corretamente propagados, mesmo em cenários com oscilação de alimentação ou interrupção parcial do ciclo de boot. Esses ajustes não apenas eliminam o erratum, mas também aumentam a imunidade do chip a ruídos transientes e interferências eletromagnéticas — fatores comuns em ambientes industriais e educacionais com infraestrutura elétrica instável.
Para os desenvolvedores, o impacto é imediato: projetos que antes dependiam de “workarounds” de software — como ciclos de reconfiguração de pinos, delays artificiais, ou monitoração constante por watchdogs — agora podem ser simplificados, resultando em código mais limpo, estável e de menor consumo energético. Essa mudança também facilita o uso de frameworks de RTOS (Real-Time Operating Systems) como FreeRTOS e Zephyr, que se beneficiam de comportamento determinístico no mapeamento e uso dos pinos de I/O.
Além do GPIO E9, outras pequenas correções foram realizadas em blocos periféricos, incluindo ajustes no controle de clock de alguns módulos PWM e SPI, garantindo menor jitter e estabilidade nos sinais gerados. Essas correções são especialmente relevantes em aplicações como controle de motores, comunicação com sensores de alta velocidade e geração de sinais temporizados com precisão — áreas onde a estabilidade do sinal é tão importante quanto sua frequência nominal.
A eliminação do erratum E9 também melhora significativamente o processo de certificação de projetos comerciais, especialmente para mercados que exigem conformidade com normas como CE, FCC ou ISO 13485 (no caso de dispositivos médicos). Com o A4, integradores podem se concentrar na aplicação e deixar para trás as incertezas relacionadas ao comportamento errático de GPIOs, um problema que, até então, exigia inúmeras horas de depuração e suporte técnico.
Ferramentas e Ecossistema: Um Ambiente de Desenvolvimento Mais Coeso
A chegada do RP2350 A4 não se limitou a mudanças físicas no silício. A Raspberry Pi também aproveitou o momento para refinar o ecossistema de desenvolvimento que acompanha o chip. O SDK oficial — amplamente baseado no modelo usado no RP2040 — recebeu atualizações específicas para dar suporte pleno às alterações de arquitetura, especialmente no que tange à segurança, mapeamento de memória e novos modos de inicialização. Isso significa que desenvolvedores que migrarem do A2 para o A4 poderão fazê-lo de forma praticamente transparente, com mudanças mínimas no código-fonte.
Entre os pontos mais relevantes está a introdução de macros e configurações específicas para detecção automática da revisão do chip, permitindo que o mesmo código binário se comporte de forma diferente caso esteja sendo executado em uma revisão anterior (A2) ou no novo A4. Essa retrocompatibilidade é essencial para projetos que já estão em campo e desejam aproveitar as melhorias sem reescrever firmware ou revalidar o pipeline de CI/CD. O suporte a boot seguro e uso avançado de regiões protegidas da flash foi integrado ao SDK de forma modular, possibilitando sua adoção gradual, conforme o nível de maturidade do projeto.
A Raspberry Pi também atualizou o ambiente de testes e simulação, com melhorias no depurador e no suporte a emuladores baseados em QEMU. Embora o RP2350 ainda não tenha uma cobertura completa na simulação ciclo-a-ciclo, essas melhorias facilitam testes automatizados, especialmente de segurança e estabilidade de boot. Além disso, bibliotecas amplamente utilizadas como TinyUSB, Pico-SDK, FreeRTOS e LVGL já estão sendo adaptadas para aproveitar os novos recursos do A4, com exemplos oficiais atualizados.
Outro avanço importante foi a publicação de novas application notes e documentação técnica detalhada, com exemplos práticos voltados para temas como inicialização segura, controle de acesso à memória e uso eficiente da nova flash. A fundação também mantém repositórios ativos com issues e pull requests voltados à comunidade, o que acelera a identificação de bugs e o desenvolvimento colaborativo de novas funcionalidades.
Para ambientes industriais e profissionais, essas melhorias significam mais do que conveniência: representam economia de tempo e previsibilidade. A possibilidade de utilizar a mesma base de código para múltiplas revisões, de forma segura e controlada, permite escalar projetos com maior confiança. Somado ao suporte oficial ao CMake, integração com Visual Studio Code, e compatibilidade com ferramentas de análise estática e testes unitários, o RP2350 A4 reforça o compromisso da Raspberry Pi com uma experiência de desenvolvimento madura, moderna e acessível.
Comparativo A2 vs A4: O Que Realmente Mudou na Prática?
Ao comparar diretamente as revisões A2 e A4 do RP2350, fica evidente que a nova versão não é apenas uma iteração incremental, mas sim uma resposta clara às principais limitações enfrentadas em campo. Enquanto a A2 foi fundamental para estabelecer a presença do RP2350 no mercado como sucessor natural do RP2040, a A4 consolida sua maturidade, agregando robustez, segurança e flexibilidade. Essa evolução é percebida tanto em aspectos técnicos quanto na experiência de desenvolvimento.
Do ponto de vista de confiabilidade, a eliminação do erratum E9 no A4 representa uma mudança crítica. O A2 exigia diversas abordagens paliativas para garantir estabilidade dos GPIOs em sistemas complexos, especialmente quando combinados com DMA ou periféricos em alta taxa de comutação. Já no A4, essas medidas deixam de ser necessárias, permitindo arquiteturas mais limpas e determinísticas — uma vantagem especialmente relevante em sistemas RTOS, aplicações críticas de tempo real ou projetos que dependem fortemente de sinais digitais precisos.
No aspecto de segurança, o A2 oferecia recursos básicos de proteção, mas deixava o sistema vulnerável a ataques de canal lateral e acessos indevidos à memória. Com o A4, a Raspberry Pi incorporou mecanismos de aleatorização, controle fino de acesso e suporte mais completo ao secure boot, elevando o microcontrolador a um novo patamar de confiança. Para aplicações IoT que exigem criptografia, autenticação de firmware e isolamento de código, o A4 reduz drasticamente a necessidade de soluções externas ou workarounds complexos.
Em relação à memória, a opção de versões com 2 MB de flash na revisão A4 representa um ganho direto de espaço para firmware e dados não voláteis, enquanto o A2 permanecia limitado a 1 MB — valor que se torna apertado em aplicações modernas com pilhas de conectividade (Wi-Fi, BLE, TLS), interfaces gráficas, suporte a OTA (Over-The-Air updates) ou camadas de segurança. Essa ampliação elimina a dependência de componentes SPI externos, resultando em menor consumo, menor área de PCB e maior integração.
Do ponto de vista de ferramentas, ambas as versões são compatíveis com o mesmo SDK, mas o A4 já nasce com macros e estruturas preparadas para suportar recursos como inicialização condicional, extensão de particionamento de memória flash, e isolamento de blocos protegidos. Isso permite que desenvolvedores criem firmware híbrido que funcione em ambas as revisões, mas ative funcionalidades avançadas apenas quando executado em A4.
Por fim, no plano estratégico, a revisão A2 foi crucial como base exploratória, mas é o A4 que entrega o pacote completo — um microcontrolador confiável, seguro, escalável e pronto para atender desde aplicações educacionais até sistemas industriais. Em resumo, para novos projetos, a A4 deve ser a escolha natural. Para projetos existentes baseados em A2, a migração para A4 é altamente recomendada — e, graças à retrocompatibilidade, também bastante viável.
Conclusão: RP2350 A4 — Uma Plataforma Mais Segura, Robusta e Pronta para o Futuro
A revisão A4 do microcontrolador RP2350 representa um passo decisivo da Raspberry Pi Foundation em direção à maturidade do seu ecossistema embarcado. Ao corrigir vulnerabilidades reais de segurança, resolver o problemático erratum GPIO E9, introduzir variantes com memória flash expandida e melhorar significativamente a previsibilidade do sistema, o RP2350 A4 não apenas corrige o passado, mas projeta a plataforma para o futuro das aplicações críticas e conectadas.
Para engenheiros e desenvolvedores, a principal virtude do A4 é a confiança. Ele elimina armadilhas que exigiam longas horas de depuração, reduz a necessidade de gambiarras de software e fornece um ambiente mais estável para desenvolvimento de firmware, especialmente em sistemas baseados em RTOS, com pilhas criptográficas, conectividade avançada ou atualizações remotas seguras (OTA). O suporte nativo a 2 MB de flash amplia a margem de manobra em aplicações modernas, permitindo integrar múltiplas bibliotecas e mecanismos de segurança diretamente na imagem de firmware principal.
A postura da Raspberry Pi também merece destaque: ao organizar desafios de segurança, ouvir ativamente a comunidade e corrigir problemas com agilidade e transparência, ela se consolida não apenas como fabricante de hardware acessível, mas como referência em engenharia de confiança. O lançamento do A4 mostra que os chips RP23xx não são apenas sucessores do RP2040 — eles representam uma nova geração de microcontroladores com ambição de atender aos requisitos rigorosos de mercados profissionais.
A recomendação é clara: novos projetos devem preferir a revisão A4 como base. Projetos existentes em A2, especialmente os que enfrentam dificuldades com GPIOs, limitações de flash ou exigem recursos de segurança mais robustos, devem planejar a migração com base na retrocompatibilidade garantida pelo SDK. Trata-se de um investimento técnico que oferece retornos diretos em estabilidade, segurança e escalabilidade.
Com o RP2350 A4, a Raspberry Pi reforça seu compromisso com a inovação aberta, o suporte à comunidade e o avanço da computação embarcada como uma ferramenta acessível e poderosa para todos — do estudante ao engenheiro de sistemas críticos.